Fiat 127 : Bem-vindo ao Futuro !

Na transição para a década de 1970, a Fiat enfrentava um grande dilema: continuar fiel ao histórico conceito de “motor e tração traseiros” ou render-se à revolução da tração dianteira. A resposta a esta encruzilhada técnica não só modernizou a marca de Turim, como deu origem a um dos maiores fenómenos comerciais da história automóvel — o Fiat 127. Com o Fiat 127, o fabricante de Turim apresentou uma visão moderna do automóvel popular.

Enquanto várias marcas europeias já exploravam a tração dianteira antes mesmo da Segunda Guerra Mundial — com destaque para a pioneira Citroën — e outras a popularizavam no pós-guerra, como a Morris com o Mini a partir de 1959, a Fiat mantinha-se fiel a uma fórmula muito própria.

A gama do gigante italiano assentava no conceito “tudo atrás” (motor e tração traseiros). Modelos emblemáticos como o Fiat 500 e o Fiat 600 foram sucessos de vendas indiscutíveis e motorizaram a Itália, mas, à medida que a década de 1960 avançava, a sua arquitetura começava a acusar o peso dos anos. Mesmo nos segmentos superiores, a Fiat hesitava em arriscar, mantendo configurações mecânicas bastante conservadoras.

A gama popular da Fiat caracterizava-se no conceito « tudo atrás »

A indústria automóvel italiana arriscava-se a ficar para trás perante uma concorrência europeia cada vez mais audaz. Estava na hora de reagir.

O laboratório secreto

Consciente de que a tração dianteira era o futuro dos automóveis compactos, Dante Giacosa conseguiu convencer a administração da Fiat a avançar com um projeto revolucionário.

Para isso iria utilizar a Autobianchi — marca subsidiária do grupo — como um “laboratório em tamanho real”.

Seria o Autobianchi Primula a testar as novas tendências tecnológicas do grupo Fiat.

Em 1964 nascia o Autobianchi Prímula. Este modelo estreou aquela que viria a ser a disposição perfeita para os carros populares modernos: motor transversal com a caixa de velocidades disposta em linha e eixos de transmissão de comprimentos desiguais, libertando um espaço habitável sem precedentes para o tamanho do veículo.

Do ensaio ao ícone

Provada a eficácia e a fiabilidade do ensaio com a Autobianchi, a Fiat deu o passo definitivo. O primeiro modelo de grande série da casa mãe a adotar a tração dianteira foi o Fiat 128, em 1969.

Estava agora na hora de modernizar o seu modelo compacto, o Fiat 850, e o substituto seria designado por Fiat 127. Nada de muito difícil: bastava aplicar as mesmas premissas do “primo” Autobianchi A112. Ou seja: motor e tração dianteiros, travões de disco e suspensão independente. No que à mecânica diz respeito, seria utilizado o motor de 903 cm³, já usado no 850 Coupé, com uma potência ligeiramente menor de 47 cv.

O design revolucionário

Mas a ambição do projeto 127 ia muito além da mecânica: a Fiat queria redesenhar o conceito de automóvel popular e criar uma referência global. Para isso, o design tinha de surpreender.

As linhas do carro contaram com o talento de dois grandes nomes do design automóvel: Rodolfo Bonetto (com passagem marcante pela Pininfarina) e o genial Pio Manzù. O resultado foi uma carroçaria de dois volumes moderna, funcional, com grandes superfícies vidradas e um incrível aproveitamento de espaço interior.

O título de Carro do Ano em 1972

Apresentado na primavera de 1971, o Fiat 127 foi um triunfo instantâneo. Ele encarnava a imagem de uma Europa jovem, moderna e em plena transformação. A imprensa especializada não poupou elogios e, em 1972 — à semelhança do que o Fiat 128 conquistara em 1970 —, o Fiat 127 foi coroado Carro do Ano na Europa.

Em Itália, o modelo assumiu o papel de automóvel de família por excelência, mas a concorrência estava atenta e não era momento de ficar à sombra da bananeira. Pelo que a Fiat vai atualizar o seu modelo, sobretudo com a chegada do Renault 5.

Em 1974 surgiu o Fiat 127 Special, com um interior refinado, nova grelha, novo volante e tablier. Em julho de 1976, a versão de 4 portas faz a sua aparição: desenvolvida pela SEAT para o mercado espanhol, a versão foi tão bem acolhida que integrou a gama oficial da Fiat no mercado italiano e europeu.

Fiat 127 – Segunda geração.

Para se manter atualizado, a segunda geração surge em 1977 com linhas renovadas. A gama de acabamentos interiores foi alargada e a colaboração com a SEAT trouxe as práticas versões de quatro e cinco portas. Ao consagrado motor de 903 cm³ juntou-se um novo bloco de 1050 cm³ com 50 cv, fabricado nas instalações da Fiat no Brasil.

Fiat 127 Sport.

Em 1978 estreou o 127 Sport, equipado com o motor de 1050 cm³ preparado para debitar 70 cv, apresentado em cores ousadas como o laranja e o preto, com dois spoilers em plástico, volante e bancos desportivos — numa resposta direta e arrojada ao Autobianchi A112 Abarth.

Fiat 127 Panorama

No início dos anos 80, as fábricas brasileiras da Fiat começaram a exportar para a Europa modelos derivados como o 127 Rustica, a carrinha Panorama e o utilitário Fiorino.

Fiat 127 Fiorino

Em 1982, o Fiat 127 entrava no seu último capítulo com o lançamento da terceira série. Claramente influenciada pela linguagem de design do mais moderno Fiat Ritmo, a carroçaria passou a adotar um uso massivo de elementos em plástico, destacando-se os para-choques envolventes e integrados, bem como as generosas proteções laterais em moldura plástica.

Mecanicamente, o modelo continuou a evoluir para dar resposta às exigências da década de 80. O irrequieto 127 Sport viu a sua cilindrada aumentar para os 1300 cm³, elevando a potência para uns expressivos 75 cv. Para além disso, a condução em autoestrada e a eficiência de combustível deram um salto significativo com a introdução da caixa de cinco velocidades em várias versões da gama.

Fiat 127 – Terceira Geração

A produção do Fiat 127 na Europa encerrou em 1983, embora a sua carreira tenha continuado com enorme sucesso no continente sul-americano (com destaque para o Brasil e Argentina sob o nome Fiat 147) até meados dos anos 90. Somando todas as suas gerações, variantes e produções sob licença ao redor do globo, o modelo registou a impressionante marca de mais de 5,6 milhões de unidades produzidas, consolidando-se como um dos maiores ícones industriais da marca de Turim. A difícil tarefa de suceder a este gigante caberia ao não menos lendário Fiat Uno…

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