Há modelos que definem uma geração. O BMW M3 E30 foi um deles. No ano em que o M3 celebra o seu 40º aniversário, é hora de falar de outro ícone da marca bávara — aquele que foi, na verdade, a génese do M3: o BMW 2002. Dois automóveis unidos pela mesma essência: a de que uma berlina compacta pode (e deve) colocar o prazer de conduzir no centro do seu ADN.

Porque para compreender verdadeiramente o BMW M3 não é preciso um curso de Engenharia, mas sim uma licenciatura em História do Automóvel. E é necessário recuar ao final dos anos 60. Naquela altura, a BMW tinha acabado de sair de um período financeiro difícil e devia o seu renascimento à «Neue Klasse», lançada no início da década com o BMW 1500, desenhado por Michelotti. Eram berlinas modernas e dinâmicas que restituíram a identidade desportiva à marca. Contudo, foi um modelo ainda mais compacto que marcou realmente os espíritos: o 2002.

Apresentado em 1968, o BMW 2002 combinava o motor de 2,0 litros e quatro cilindros das berlinas 2000 com a carroçaria compacta e leve do 1600-2. A equação parecia simples, mas funcionava com mestria: direção precisa, tração equilibrada e um motor ávido por rotação. O pequeno BMW provava ser incrivelmente vivo ao volante. Rapidamente se tornou na personificação da berlina desportiva acessível, capaz de seduzir tanto entusiastas como condutores à procura de um automóvel versátil para o dia a dia.

As versões sucediam-se: aos 100 cv do 2002 original juntou-se rapidamente o 2002 ti (com carburador duplo e 119 cv) e, mais tarde, o emblemático 2002 tii, já com injeção mecânica e 130 cv. Mas a ambição de Munique não se ficava por ali. No início dos anos 70, a competição e a experimentação técnica levaram os engenheiros da BMW a explorar novos caminhos. Um deles chamava-se turbocompressor. Ainda extremamente rara em automóveis de série, esta tecnologia prometia ganhos de potência espetaculares. A BMW decidiu dar o salto.

Em 1973 nascia o espetacular BMW 2002 Turbo. Com cavas das rodas alargadas, jantes mais largas e o famoso spoiler dianteiro com a inscrição «2002 Turbo» invertida — para que fosse lida na perfeição nos espelhos retrovisores de quem circulava à sua frente —, o carro não escondia as suas intenções. Debaixo do capô, o bloco de dois litros recebia um turbo Kühnle, Kopp & Kausch (KKK), elevando a potência para uns impressionantes 170 cavalos. Mais do que os números, era o temperamento que impressionava: a entrega de potência do turbo estava longe de ser progressiva, transformando a berlina num verdadeiro animal asfáltico. Sem ajudas eletrónicas e com pneus estreitos para os padrões atuais, exigia mãos firmes e respeito absoluto.

Com 38.703 unidades produzidas do 2002 tii e uma produção exclusiva de apenas 1.672 unidades do lendário Turbo até 1975, esta família de modelos estabeleceu o mercado das berlinas desportivas compactas. Nesse mesmo ano, a BMW dava lugar ao E21, inaugurando a mítica designação “Série 3”.
Com a linhagem do BMW 2002, a marca de Munique provou o seu talento e afirmou-se definitivamente como uma referência incontornável entre os construtores de automóveis desportivos premium.

