Citroën 2CV 4×4 Sahara: O Santo Graal

Se tivéssemos de escolher um automóvel que ilustrasse na perfeição o automóvel europeu em toda a sua simplicidade, este seria o Citroën 2CV. Mas hoje não vamos falar de uma versão comum do alegre “dois cavalos”. O automóvel de hoje é uma versão do 2CV do qual apenas foram fabricadas 694 unidades. Um fracasso comercial na altura, que se tornou no 2CV mais desejado pelos colecionadores o 2cv 4×4 Sahara.

A ORIGEM

A origem do 2cv 4×4 Sahara deve-se a M. Bonafous, um engenheiro de obras públicas, possuidor de um Citroën 2cv Type A e de um Jeep Willys utilizados para desbravar os terrenos mais difíceis. Apesar do Jeep ser um ótimo todo-o-terreno, é-lhe bastante difícil dispor de peças e quando as encontra estas são muito dispendiosas.

Estamos no ano de 1954, o senhor Bonafous decide então de modificar o seu pacifico 2CV num todo-o-terreno. Para isso, opta por acrescentar-lhe um segundo motor ligado ao eixo traseiro. Depois de um ano de trabalhos este consegue terminar o seu projeto de 2CV 4×4. Com a intervenção do seu irmão, a Citroën toma conhecimento da existência deste automóvel único. Este suscitou de imediato a curiosidade e o interesse dos dirigentes da empresa que enviam uma equipa de engenheiros para estudarem a viabilidade de uma eventual comercialização do projeto.

Os homens da Citroën vêem neste 2CV o veículo ideal para substituir os Jeep Willys e os Land Rover usados nas explorações petrolíferas das colónias francesas do Norte de África.

Depois de feitas as modificações necessárias à sua industrialização, a marca aos “chevrons” convoca em 1958 os jornalistas e a imprensa especializada à apresentação do protótipo desta nova versão 2CV, denominando-a de Citroën 2CV 4×4 Sahara. Estupefactos, os jornalistas e alguns dos dirigentes das maiores empresas públicas francesas, também eles convidados para evento, constatam a facilidade com que este veículo ultrapassa os mais variados obstáculos.

Chegado o mês de maio de 1958, a Citroën decide integrar o novo Citroën 2CV 4×4 Sahara no catálogo da marca, apresentando-o oficialmente no salão dos veículos industriais em Paris. Este 2CV 4×4 Sahara respeita a tradição da marca, apresentando para isso uma ficha técnica repleta de engenhosas soluções.

Para transformar-se num todo-o-terreno, este 2CV conta com a presença de dois motores bicilindricos de 425 cm3. Em que o primeiro fornece a tracção ao eixo dianteiro e o segundo ao eixo traseiro, este complexo sistema acumula a potência total de 26 cv. Se o Citroën 2CV 4×4 Sahara possui duas caixas de velocidades, estas são comandadas por uma única alavanca de velocidades situada entre os bancos dianteiros, o que faz do 2CV Sahara um modelo único entre os demais 2CV. Esta alavanca é acompanhada de um pequeno comando que permitia ao condutor desconectar o motor traseiro caso desejasse apenas utilizar o motor dianteiro.

Quem diz dois motores, diz dois depósitos de combustível com 15 litros cada, situados sob os bancos do condutor e do passageiro, o que a bem da verdade não é muito tranquilizador. Outra das particularidades do 2CV 4×4 Sahara é a presença de duas chaves de ignição, o que é “normal” pois este possui dois motores.

Esteticamente o 2CV 4×4 Sahara apresenta também algumas particularidades que o distingue da restante gama 2CV. A bagageira desaparece em favor do motor traseiro, pelo que a tampa da mala traseira é profundamente modificada para permitir o arrefecimento do respetivo motor. As asas dianteiras e traseiras são alargadas para deixar espaço às rodas de maiores dimensões que equipam o veículo.

Sem dúvida, o que torna este 2CV Sahara facilmente identificável face aos restantes 2CV, é o posicionamento escolhido para albergar a roda de reserva. Esta foi colocada sobre o capô, o que na minha opinião lhe dá um ar mais aventureiro.

Desvendado ao público em 1958, o Citroën 2cv 4×4 Sahara tarda em obter a sua homologação, esta acabará por chegar dois anos mais tarde. A produção é assegurada pela Panhard, marca com a qual a Citroën já tinha um acordo para a produção da versão comercial do 2CV. Construtor que a Citroën acabará por comprar alguns anos mais tarde.

As vendas por seu lado vão evoluindo muito lentamente, sobretudo a partir de 1962, ano em que a Argélia se torna independente. O que leva a Citroën a abandonar a denominação Sahara, passando a chamar-se apenas 2CV 4×4.

Apesar de ser um automóvel muito apreciado nas regiões montanhosas onde este enfrentava a neve e as estradas geladas sem dificuldades, o 2CV 4×4 não obteve o sucesso estimado pela marca. Sem dúvida pelo seu elevado preço, pois este custava praticamente o dobro de um Citroën 2CV “normal”.

Com pouco mais de 7 anos de carreira e 694 unidades vendidas, de entre as quais 80 unidades à Guarda Civil Espanhola, o Citroën 2CV 4×4 ficou aquém das expectativas. Pouco a pouco a Citroën começa a perceber que para conquistar o publico das ex-colónias e dos países emergentes terá de propor um automóvel mais adaptado a estes mercados – o Citroën FAF.

O Citroën 2CV 4×4 abandona discretamente o catálogo da marca aos “chevrons” durante o ano de 1967, caberá ao Méhari de ocupar o espaço deixado pelo 2CV 4×4. No entanto será necessário esperar pelo ano de 1979 para que este tenha direito à sua versão 4×4, desta feita adotando uma solução técnica mais convencional.

O Citroën 2cv Sahara é a prova de que apesar de ter sido um fracasso comercial, um modelo pode muito bem tornar-se na versão mais desejada atualmente pelos colecionadores. Estes são capazes de pagar mais de 180 mil euros para adquirir o Santo Graal dos 2 CV.

Vive a tua Paixão!

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