Citroën Traction Avant: Hino à inovação.

No ano em que se comemora os 80 anos do dia D na Normandia. A Citroën está a celebrar o 90º aniversário do Traction Avant, um dos automóveis emblemáticos deste período conturbado da historia. Concebido para deixar uma impressão duradoura, tinha como objectivo relançar a marca Citroën e realçar o espírito inovador de um construtor que foi o primeiro a importar a produção de automóveis em série para a Europa. Lançado com a denominação comercial “7”, em referência à sua potência fiscal, passou rapidamente a ser referido como Traction Avant, fruto de uma das inovações que acabava de introduzir.

Em 1934 a produção automóvel caracterizava-se por automóveis de concepção tradicional e fabricados artesanalmente tornando-os objetos de luxo. Com a apresentação do Citroën Traction Avant, a marca francesa revoluciona a indústria ao reunir num único modelo todas as soluções técnicas mais modernas da época, como a tracção às rodas da frente, a estrutura monocoque, os travões hidráulicos e a suspensão independente nas quatro rodas.

O seu estilo aerodinâmico característico, inspirado nos veículos do tipo “Streamline“, rapidamente o tornou num modelo emblemático da Citroën. Venderam-se no total 760 mil exemplares do Traction Avant, numa produção que terminaria em 1957, permanecendo como um emblema da marca francesa, encarnando assim a sua promessa de design e de conforto ao serviço da mobilidade do maior número possível de pessoas.

O “automóvel das 100 patentes”

Quando, no início de 1933, foi tomada a decisão de substituir os Citroën 8, 10 e 15, André Citroën quis surpreender a concorrência, lançando um automóvel totalmente revolucionário. O seu objectivo era estar, pelo menos, dois anos à frente da concorrência e, ao mesmo tempo proteger-se dos efeitos da crise económica mundial do início dos anos 30, cujos efeitos começavam a fazer-se sentir fortemente na Europa. O novo automóvel deveria, por conseguinte, ser particularmente notável e apresentar o maior número possível de inovações técnicas.

O caderno de encargos incluía uma carroçaria monobloco totalmente em aço, que baixava consideravelmente o centro de gravidade, tracção às rodas dianteiras, um motor flutuante com válvulas à cabeça e camisas de cilindros amovíveis, travões hidráulicos, suspensão independente nas quatro rodas com barra de torção e uma caixa de velocidades automática (esta última foi abandonada devido à falta de tempo para o seu desenvolvimento).

Para além destas inovações técnicas, o Traction Avant foi dotado de uma carroçaria baixa e aerodinâmica, tanto pelas suas linhas como pelo seu fundo plano. Por fim, o motor e a caixa de velocidades, formando um grupo propulsor compacto, permitiam, para além de um centro de gravidade muito baixo, que fosse posicionado o máximo de peso à frente.

Os primeiros jornalistas e condutores ficaram de imediato impressionados, elogiando o novo Citroën – nunca um automóvel tinha oferecido uma condução tão segura e fácil em todas as situações, com o seu comportamento a estabelecer-se como uma nova referência.

Todas estas qualidades, foram constantemente melhoradas, dando ao Citroën Traction Avant uma vantagem técnica sobre os restantes automóveis da época, ficando apelidado de “automóvel das 100 patentes”.

Um automóvel, várias carroçarias

Quando o 7 foi lançado em 1934, estava disponível como berlina de quatro portas, coupé (ou falso cabriolet) e cabriolet com pára-brisas rebatível (ou roadster). Com a chegada do 11 surge uma carroçaria longa de seis janelas, como carrinha de 7 a 9 lugares , ou berlina de 5 a 6 lugares, bem como com uma carroçaria longa de quatro janelas, como coupé citadino de cinco lugares. A gama fica completa com a versão comercial dotada de uma carga útil de 500 kg.

O 7, o primeiro Traction

O primeiro modelo do Traction, o 7 A, entrou em produção a 18 de Abril de 1934. Estava equipado com um motor de quatro cilindros, com 1303 cc de cilindrada e 32 cv, para 7 cavalos fiscais. Foi o único verdadeiro 7 CV. Considerado pouco potente foi substituído pelo 7 B com 35 cv em julho de 1934.

Um mês depois foi lançada uma versão desportiva do 7, denominada 7 S ou 7 Sport. Sob o capot encontrava-se um motor que desenvolvia 46cv, para uma uma velocidade máxima de 115 km/h. A produção do Traction 7 terminaria na Primavera de 1941.

O 11 e a sua longa carreira

O primeiro 11 foi baptizado de 11 A, e recebeu o motor de 1910 cc, com 46cv. Seria acompanhado pelo 11 AL (ou 11 Légère), que substituiria o 7 S. Mantendo a carroçaria de um 7 e um motor de 11cv. Em Fevereiro de 1937, o 11 B e o 11 BL substituíram o 11 A e o 11 AL, surgindo mais tarde uma versão comercial do 11, com o nome de 11 C, ou 11 Commerciale.

A produção do Citroën Traction 11 chegaria ao fim a 25 de Julho de 1957, na fábrica de Javel. Foi o último dos Traction a ser produzido.

O 15, o Rei da Estrada

Depois de ter abandonado o projeto do Traction Avant equipado com um motor de 8 cilindros, a Citroën – que continuava a pretender comercializar um Traction Avant topo de gama – lançou o 15 Six em Outubro de 1938. Estava equipado com um novíssimo motor de seis cilindros em linha, de 2867cc e 77cv.

Adoptava o mesmo exterior que o 11 B, fruto da sua carroçaria idêntica, mas contando com um novo motor, mais longo, que fazia o capot alongar em 11 cm, dando ao automóvel uma personalidade distinta. Potente e silencioso, com um comportamento em estrada e um conforto excepcionais, foi rapidamente apelidado de “Rei da Estrada”.

Em fim de carreira o 15 Six seria utilizado para testar a nova suspensão hidropneumática, tratava-se, nada mais, nada menos, do que a suspensão revolucionária que viria a equipar o Citroën DS 19.

As proezas do Traction Avant

A partir do momento em que foi lançado, o Traction Avant começou a destacar-se em várias competições, alcançando façanhas desportivas de relevo. François Lecot e Maurice Penaud aos comandos, demonstrou as suas qualidades mecânicas ao participar em impressionantes provas de resistência, entre as quais uma Volta à França e à Bélgica, ou ainda, fazendo a primeira ligação Paris-Moscovo-Paris, percorrendo 3200 quilómetros em oito dias.

O Citroën Traction Avant distinguiu-se no domínio da elegância, nos muito populares concursos de Bagatelle, Bois de Boulogne e Deauville, onde, como berlina, cabriolet ou coupé, as suas linhas baixas e aerodinâmicas lhe permitiram conquistar vários “Grands Prix”, “Premiers Prix”, “Prix d’Excellence” e “Prix du Jury”.

Monumento histórico e peça de colecção

Verdadeiro ícone francês, o Traction Avant é um dos raros automóveis a ser considerado por muitos como um verdadeiro monumento histórico. Desde o seu lançamento a 18 de Abril de 1934 que faz parte do quotidiano francês. Tornar-se-ia, entre outros, na escolha de assaltantes de bancos, em viaturas militares de 1939 a 1945, e na máquina dos combatentes da Resistência, a quem ajudou na libertação da França, e depois no automóvel do país em reconstrução. Na vida política, tornou-se, também, no automóvel oficial do Estado Francês, sendo o preferido do Général de Gaulle.

Apenas dez anos após o fim da produção, era criado o primeiro clube de coleccionadores inteiramente dedicado ao Citroën Traction Avant. Este é hoje o maior clube do género no mundo, integrando mais de 1600 membros distribuídos por 17 secções regionais francesas e por todos os continentes.

Após 23 anos de comercialização e cerca de 760 mil unidades produzidas, o Citroën Traction Avant revolucionou a industria automóvel. Este que foi uma imagem incontornável da 2ª Guerra Mundial, marca o inicio desta longa linhagem de berlinas inovadoras da marca aos “chevrons”. Será substituído pelo igualmente mítico Citroën DS.

Vive a tua paixão!

3 thoughts on “Citroën Traction Avant: Hino à inovação.

Deixe um comentário